domingo, 15 de abril de 2012

Sublimar


Serenamente repouso
nas sombras
dos amantes perdidos
Nas memórias
que perderam a cor
e sombras
se tornaram
Repouso no aconchego
da certeza
de saber amar
Não deixei palavras
ocultas
no meu coração
as declarei
Não contive meus gestos
massacrando
minh’alma
Ofereci ternura
Ofereci carinho
Ofereci prazer
Minha inocência se dá
pela vergonha
daqueles
que não sabem
ser amados
Não sobrou o remorso:
Das palavras
que não foram ditas
Das carícias
que não foram feitas
Das emoções
que não foram vividas
Sorvi cada gota
de todas as poções
do amor
que me foi ofertado
Não carrego
a vergonha
de ajoelhar
e não rezar
Outros medos
podem
tentar
me assombrar
Pouco a pouco
irei superar
A calma
sempre foi
sempre é
sempre será
minha fiel
companheira
Com o coração
leve
é fácil
a coragem restaurar
Mas a paz infinita
é poder atestar
Que em verdade:
Não tive
Não tenho
Não terei
medo de amar.
Meu amor próprio
transborda
e sobra
e não faltará
para aquele
que não tem medo
de ser amado
que não tem medo
de amar.

Marise Lima Muniz

sábado, 14 de abril de 2012

Uma História Perfeita


Foi uma história tão insólita, que fico pensando se devo envolver o leitor em tal bravata, vão me chamar de louco, não me importo, eu vi, eu estava lá quando tudo aconteceu.
Eu tinha um amigo, ele escrevia quadrinhos e um dia me chamou e começou o seu relato. Ele tinha uma vida, uma casa, uma esposa e um filho, tinha também o seu trabalho porcamente reconhecido, o nível de frustração era maior do que ele podia suportar, até que um dia teve uma ideia genial, iria criar uma história que mesmo que não virasse nada, ao menos faria com que se sentisse feliz, como um modo de sublimar um pouco o seu desespero.
Era um homem muito disciplinado, e sempre no mesmo horário escrevia o roteiro e ilustrava sua história perfeita, era assim que ele se referia - “Minha História Perfeita”.
Dia após dia, começou a compor cada detalhe, era o protagonista de tudo: A vida perfeita, a casa dos sonhos, a esposa ideal e o filho que todo pai sonha, contava os minutos para chegar o momento de continuar sua obra, até que um dia, algo muito estranho aconteceu; ele foi absorvido pela história, e assim foi por vários dias, veja que o sentido aqui é literal, vou repetir: ele foi absorvido pela história, entrou dentro do quadrinho e cada vez que ele começava a escrever se tornava transparente neste mundo e se materializava dentro de sua própria criação. Ele estava radiante, ficava lá o tempo exato em que geralmente e disciplinadamente trabalhava naquela história, vivendo em sua casa de sonhos, com sua esposa ideal e filho exemplar.
Estava tudo bem, até que certo dia a coisa desandou, foi como o de costume, ele sentou e começou a desenhar e em poucos segundos estava lá, dentro de sua história, mas desta vez tudo estava estranho, até então ele tinha o controle sobre aquele lugar, mas aquele dia não foi assim, ao invés do prazer que sempre era proporcionado pelas poucas horas que passava em seu mundo ideal, tudo se inverteu, a história começou agir por conta própria. Seria natural se ele estivesse no nosso mundo, afinal é assim que vivemos, podemos ter controle sobre nossos atos, mas não temos controle nenhum sobre os caminhos e desenlaces do destino.
Pouco a pouco tudo foi se transformando em um pesadelo tão grande, que passou a ter um horror imenso quando a hora de trabalhar em sua história se aproximava, não importava onde estivesse, era absorvido e ficava lá até o horário em que poderia sair de novo, mas tudo foi piorando, pois estava ficando cada vez mais difícil sair, o tormento aumentava dia a dia, foi neste momento que ele me chamou e contou-me o que estava acontecendo, a princípio pensei que meu amigo estava ficando louco, pois era assim que ele se portava, estava suando e muito aflito, queria contar a história completa antes que fosse tarde.
Eu estava sentado bem à frente dele e tudo se passou tão rápido e o horror foi tão grande, que sinto arrepios e até certa dificuldade em narrar este último momento, mas já comecei, e não posso abandonar o leitor que atenciosamente chegou até aqui comigo.
Meu amigo diz que me chamou, pois precisava de ajuda e não sabia  como seria assim que chegasse a fatídica hora, ele me conta em prantos esta parte da história, temendo que ao chegar o horário de trabalho tornasse a ser absorvido, queimou tudo, esvaziou o seu estúdio, não poupou nada, no lugar que antes era agradavelmente planejado para o seu trabalho estava completamente vazio, no fundo do seu quintal, tudo estava reduzido a cinzas, ele estava todo sujo e cheirando a fumaça, passou a madrugada toda, remexendo a fogueira para que sobrasse só cinzas.
De repente o relógio da igreja começou a badalar, e ao som de cada badalada meu amigo estremecia, sem saber o que iria acontecer, eu o acalmei dizendo que era apenas um sonho, fruto de seu cansaço e insatisfação com tudo, porém quando o sino deu a última badalada, diante de meus olhos meu amigo começou a desaparecer, e tudo foi tão rápido que a única coisa que  ficou na minha memória, foi o olhar dele se desvanecendo na minha frente, e onde ele estava sentado apareceu um gibi, fiquei atônito e por alguns segundos nem sequer consegui me mover, respirei fundo e num gesto brusco me levantei, apanhei a história, e comecei em pé mesmo a ler com muita voracidade, devorando cada página, e constatando cada detalhe que ele havia descrito para mim.
Página a página o horror absorvia a história, tal qual ele disse, tive medo ao virar a última página, mas precisava saber o que aconteceu...
Lágrimas escorrem da minha face ao ver as últimas tiras, na primeira; estou desenhado lendo o gibi em pé de frente à cadeira que meu amigo estava sentado antes de desaparecer, no segundo quadro todo o lugar estava completamente destruído pelo fogo, um deserto de cinzas sombrio e desolador, no terceiro quadro, fechei os olhos como se pudesse interromper o processo, ficando em minha mente apenas um rápido vislumbre da palavra “Fim”. Meu amigo estava lá preso, batendo na última página como um prisioneiro atrás de um vidro, com um desespero atroz em seus olhos, tive a esperança de que ao acabar o horário que ele costumava trabalhar, ele saísse de lá e aparecesse novamente em minha frente, mas isto não aconteceu, já se passaram dez anos, e todos os dias eu leio a história, contemplo a página final dividida em três quadros e espero a última badalado do sino da igreja, na esperança de vê-lo novamente diante de mim, tentando ignorar completamente que de fato meu amigo foi absorvido pelo  “Fim” de sua história “perfeita”.


Marise Lima Muniz

sexta-feira, 13 de abril de 2012

A Ilusão de ser Humano

Pensar em natureza é senti-la, todo o processo da vida é predador, é a vida se alimentando da vida, hoje nos comemos os animais, mas um dia seremos comidos pelos vermes da terra, num ciclo de retorno. O ser humano insiste em ser o avesso de tudo que é natural, transforma sexo em tabu, alimentar-se em catástrofe contra os animais.
A aranha é mestra da captura e gosta de devorar suas vitimas frescas e vivas, de acordo com cada espécie usa um sistema bem sofisticado de captura, ela não é cruel ou desalmada, ela é natureza cumprindo o seu papel, um dia seremos adubo e retornaremos para terra e alimentaremos novas vidas, toda vez que o homem interrompeu algo que ele considerou crueldade ele criou mais crueldade ainda, nos EUA cismaram que o leão da montanha iria acabar com os veados campeiros, mataram o leão, e logo depois uma superpopulação de veados quase se extinguiu, em Portugal resolveram acabar com os pardais, pois eles destroem os ovos dos outros ninhos, acontece que ele é um controlador do equilíbrio, como sapos controlam gafanhotos... Nunca vi um leão chegar para um animal e perguntar:- Desculpe estarei sendo cruel ao comê-lo vivo, estraçalhar você em vários pedaços e depois devorá-lo? O ser humano sofre de uma grande ilusão, ele se acha diferente dos outros animais, ele sonha em ser "humano", deveria assumir que é um animal igual a qualquer outro predador... hora devora, hora é devorado.... Crueldade é deixar gente morrer de fome (dizem que é a morte mais dolorida), crianças bebendo urina de vaca, comendo lixo e morrendo a mingua, enquanto outros gastam fortunas em pet shop. A violência contra a mulher já esta em 52% (índice mundial), são espancadas até a morte por seus companheiros ou homens da família, esfaqueadas, queimadas vivas, torturadas, estupradas, violentadas e extirpadas... acredito que sejam mortas de um jeito bem parecido com que os homens matam alguns animais... muitas são esquartejadas... aqui no Brasil o assassino jogou a mulher em pedaços para o seu cachorro comer... Confuso não acham? E fica mais confuso quando os homens resolvem cuidar bem dos animais, exemplo; alguém pega seus filhos e vende ou dá, como se faz com os cachorros...
Só para deixar a coisa mais intrigante, na população prisional mundial 95% são homens e apenas 5% são mulheres, em duzentos anos aumentou 1 % no grupo feminino, e este um por cento de mulheres foram aliciadas por homens... Quem sabe respondendo ao "por quê”? desta diferença, alguém encontre uma pista para construir um mundo melhor aonde todos respeitem a natureza, olha que esta confusão começou a piorar quando Deus disse “ O homem terá domínio sobre todos os seres da terra", convenhamos isto não deu certo, fiquei sabendo de fonte fidedigna que a frase deveria ser "O homem terá que se harmonizar com todos os seres da terra" ... imagino que quando ele fizer isto pode ser... que algo melhore... mesmo porque é bagunça demais para arrumar de uma hora para outra...

Marise Lima Muniz

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Palavras Desenhadas com Beijos e Borboletas

Pousei no silêncio
Não senti medo
Abri... de mansinho...
Abri... de leve...
Uma asa...
Segui o roteiro
Degustei palavras
Lentamente...
Outra asa...
Bem de leve...
Novas palavras...
Emoção demais!

Viro uma folha
Elas quase escapam
Solto um beijo no ar
Imediatamente
Elas voltam
Voam em círculos
Quase uma canção
No toque das asas
No toque dos lábios
No beijo
Que ficou no ar
Viro de novo
Com mais cuidado
Já tinha percebido
As sombras... as asas

Nova descoberta
O impacto foi muito forte
Me desequilibro no ar
Lábios... olhos...
Se encontram... se fundem
Imensas asas... se abrem...
Recomeço o vôo
Mas não estou só
Meu coração disparado
Me alcança no ar
Taquicardia com asas
Emoção Demais

Marise Lima Muniz

terça-feira, 10 de abril de 2012

Um Poema Para Raquel

Há nos seus olhos
um inexplicável perfume
com aroma de mistério
Toda a sedução
de quem tem guardado
na sua essência
mil segredos de magia
Bolas de cristal
captando segredos
Ternura escorrendo
deslizando
entre luzes e sombras
Gestos suaves
rituais de magia
Seu corpo dança
desliza no ar
ao som do universo
Palavras doces e macias
saltam livres
do seu olhar
Misturando em cada gesto
toda certeza
de quem não tem medo... 
de viver... de amar...
de sonhar... de voar...
Como explicar...
Como dizer...
Todo prazer...
Que sua presença me dá.

Marise Lima Muniz

Nota do autor:- Poema dedicado a minha amada amiga Raquel Beatris de Carvalho



terça-feira, 27 de março de 2012

Como Desintoxicar Guerreiros Cansados Demais de Batalhas!

Um dia você se torna um guerreiro, mas não é um guerreiro qualquer é um guerreiro impecável, um guerreiro consagrado aos Deuses e por isto não precisa de armaduras, pois os Deuses o protegem... Ser um guerreiro impecável não tem nada a ver com combates exteriores, e sim com uma busca pessoal, tornou-se um guerreiro com o objetivo de ter um compromisso maior com seus atos e para ir em busca de si mesmo... Este tipo de guerreiro enfrenta três inimigos, cada um pior que o outro:- O medo (pois estará indo por caminhos que nunca buscou antes e de frente com o desconhecido, terá que conhecer sua luz e igualmente conhecer sua sombra, de modo que nada possa assustá-lo ou admirá-lo, não se comove nem com os seus vícios nem com as suas virtudes, assim não fica a se lastimar e nem tão pouco a se vangloriar) a regra do guerreiro impecável é simples; fazer para os outros o que gostaria que fizessem para você, e não fazer para os outros o que não gostaria que fizessem para você (reside nisto o segredo do seu poder)... Um guerreiro impecável não faz nada por reconhecimento ou em troca de algo, faz porque tem que ser feito (simples assim), os outros podem reclamar de sina, benção ou maldição, mas o guerreiro impecável chama de desafio.... O Segundo inimigo "A clareza" achar que sabe esgota toda a possibilidade de aprendizado, estagna e paralisa toda a possibilidade de conhecimento, achar que sabe te impede de aprender mais e isto é pior que a morte...  Sabe que a morte é a sua eterna caçadora e sua fiel companheira, esta sempre a sua esquerda é e a melhor conselheira que alguém possa consultar, basta que ela estique o braço para te levar... o guerreiro impecável sabe que não é eterno, e sabe também que não há um dia depois para corrigir suas falhas, ele tem que agir em cada dia da melhor maneira possível... Impecabilidade dá um poder incrível e o torna invulnerável... O terceiro inimigo é a vontade de descansar, o sentimento que já fez tudo que poderia e que não suporta fazer mais nada, este inimigo é terrível ele mina todas as forças, apaga os sonhos e os planos e é o mais cruel de todos... Mas para um guerreiro cansado, não porque foi vencido pelo terceiro inimigo e sim por estar ferido demais, existe o descanso forçado do guerreiro, nos primórdios quando um guerreiro muito poderoso se encontrava ferido, ele era forçado a se recuperar! Ficava cercado de belas mulheres ou belos homens quando eram mulheres, com muita animação e muita diversão até que estivessem totalmente recuperados... era assim que se fazia... mesmo que ele quisesse continuar lutando, não deixavam até que estivesse forte novamente.... Moral da história; o modo de se desintoxicar das batalhas é aproveitar intensamente a vida, desencanar das batalhas até estar forte de novo, divertir-se a moda dos gauleses, este tipo de coisa fica bem ilustrado em Asterix, com as festas que fazem para recebê-los.... depois de cada aventura... Regra geral o guerreiro antes de qualquer coisa tem que ter a insustentável leveza de ser... e a habilidade de ser feliz por nada... pois seu único medo é que o céu desabe sobre sua cabeça rsrsrs... afinal um guerreiro deve ser irredutível  do começo ao fim...  

Marise Lima Muniz

quarta-feira, 14 de março de 2012

Relatividade

O tempo rastejava
O tempo voava
O tempo rodopiava
Sentia Vertigem
Achava graça de tudo
Sem nunca se cansar

O tempo acreditava
Na esperança
O tempo esperava
Pela Justiça
Que nunca veio
Com o tempo se encontrar

O tempo passava
E tudo continuava
O tempo chorava
E não adiantava

Alguém disse
Que viu... o tempo passar
O tempo passou
Sem nada solucionar

O tempo soluçou
E a tristeza
Veio consolar

O tempo parou
Esperou
A esperança voltar

O tempo correu
E não deixou
A tristeza lhe alcançar

O tempo não existe
O tempo não desiste
Se a tristeza lhe pegar

O tempo chorou
E ninguém conseguiu
Sua lágrima secar

O tempo acabou
E deixou tudo no ar
Nenhuma resposta
Nenhuma palavra

Todos os enigmas
Continuam lá
Onde o tempo
Não conseguiu chegar

Marise Lima Muniz
(14/03/2012 – 05h30min)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A Noite

A noite chega
E acorda
O meu espírito
Acalma a minha
Alma
Descansa
O meu corpo
Na noite
Eu respiro
Na noite
Eu desperto
E me despeço
Do sufoco
Do dia
Na noite
Eu me encontro
A paz me domina
Tira o peso
Das marcas
Do dia
Na noite
Eu me lembro
Quem sou
No dia
Eu esqueço
Na noite
Conheço mundos
Que o dia
Ocultou
Na noite
Encontro respostas
Que o dia
Roubou
A noite 
Me devolve
Tudo
Que o dia
Levou.

Marise Lima Muniz

terça-feira, 30 de agosto de 2011

A Espreita


Perdi a chave
A gaiola está trancada
Olho fixamente para o gato
Ele lambe a boca
E me fixa também
Eu choro de medo
Mas chorar não adianta
Estou sem a chave
Quem sabe o gato pegou
Não posso dormir
O gato espera que eu durma
O gato sorri satisfeito
Com o meu sono
Sorriso felino... traiçoeiro
Ele ronrona... Uma suave canção
O sono vem
E o gato tem a chave
Não preciso da chave
O gato comeu meu corpo
Mas se engasgou com a
Minha alma
Meu espírito o sufocou
O gato morreu
Mas eu sempre estive livre
Minhas penas ficaram
Na boca do felino
Mas o coração
Fugiu para sempre
O gato morreu
Mas eu estou aqui em cima
Olhando seu corpo estirado
Através da porta aberta
Da gaiola
Com a chave na mão...
(15/07/1992)

Marise Lima Muniz 

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Grito Mudo


Eu sempre me convenci
Você tem que enfrentar tudo
Você não pode fugir nunca
Meu Deus! Como eu quero!
O direito de fugir
O direito de jogar tudo
Pro alto
O direito de sumir
Olho a minha volta
E vejo as pessoas
Levando a vida como querem
E me vejo aqui parada
Engolindo tudo
Engolindo seco
Espinha de peixe
Atravessada na garganta
Furando, vazando pelo pescoço
Não posso nem gritar
Lágrima escorrendo
Grito mudo da garganta.
(06/07/1992)

Marise Lima Muniz

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Luz e Sombra


Fico vagando
Como uma sombra
Procurando lugar para ficar
Pousar e envolver
Não me identifico mais
Mudo minha forma
A cada mudança de luz
Se a luz for muito forte
Corro o risco de sumir
Vida de sombra
Vida sombria
Sombria rima com fria...
Solidão sombria... fria...
Vida de sombras
Sombras sem vida
A sombra assombrou a vida
Crio a ilusão da imagem inversa
Imagino que o reflexo da sombra
Poderia ser luz
Poderia ser azul
Poderia ser negro
E no negro, também sumir...
(06/07/1992)

Marise Lima Muniz

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A Fábula da Mentira


No mundo dos animais racionais, a Mentira reinava imponente, e conhecia de cor as desventuras da Verdade, séqüitos nunca lhe faltavam, e todos eram honestos, todos eram leais, todos tinham ética e todos tinham moral ilibada. A vaidade era eternamente jovem, falava aos quatro ventos o que jurava ser sua idade. O orgulho contava seus feitos, e a mentira prontamente aprovava.
Ela reinava absoluta, era dita e bendita como socialmente aceita, todos a justificavam, todos eram condescendentes, afirmavam que de fato era necessária.
       Neste reino absoluto, todos acabaram esquecendo quem eram; preocupados demais com o que os outros achavam deles, com medo demais de saber quem realmente eram, pois  a raiz da mentira, é justamente mentir para si mesmo, o resto é conseqüência desta ausência da verdade.
De repente mentiam tanto sobre si mesmos, que já não gostavam do próprio rosto, e cobiçavam o rosto de alguém, nas redes sociais eram sempre virtuosos, eram sempre generosos e engajados, mas quem sabe, quem pode ter certeza, deste esquecimento coletivo, destas diferenças renegadas.
Não é a verdade que magoa, é como se fala dela, mas este era um motivo a mais, com o qual a mentira comprazia-se, desta deselegância brutal dos ditos donos da verdade.
O grande conselheiro da mentira é o julgamento, o horror abissal de ser julgado, a contrapartida da falta de medida para julgar os outros.
Mas quando um Império tirano atinge seu ápice, principalmente um império que a todos calou, corações sonham com sua derrocada, e pouco a pouco, nasce à vontade de ser diferente, e o direito inafiançável de ser quem de fato é, e ser aceito como tal, e a contrapartida de aceitar os outros como são.
Mas haverá um dia no reino da mentira, sinto que todos sonham com este dia, o dia em que todos serão verdadeiros, sem medo e sem julgamentos. O dia que cada um poderá reconhecer os seus atos, e falar deles sem vergonha. Não mais um mundo de vitórias e fracassos, um mundo de aparências, mas sim de valores e de consistência, um mundo aonde os animais racionais, assumem o verdadeiro significado de ser humano, este será na Verdade o maior sonho humano, e com certeza o maior pesadelo da Mentira.

Moral da história: No dia que todos aceitarem as diferenças, a porta da verdade se abrirá, e pela mesma porta a mentira saíra.

Marise Lima Muniz

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A Fábula da Verdade


Um certo dia, todos os animais racionais, num processo de consciência coletiva e unânime, perceberam que a Verdade nunca esteve aqui, que ela nunca existiu no sentido literal da palavra, no sentido do que de fato ela representa. Foi com certeza um dia muito estranho, pois todos, todos mesmo, saíram de suas casas e começaram a chamar pela Verdade, foram tantos os pedidos, foram tantas as súplicas, que a Verdade se comoveu e resolveu atender o chamado, afinal, todos os animais racionais estavam reunidos nesta intenção, algo bastante incomum, ato que merecia atenção.
A Caminho da Terra, a Verdade sorria, e se sentia desejada, fantasiou as diferentes recepções que teria e ficou mais satisfeita ainda.
A Verdade se manifestou diante de todos, imaginando que ao vê-la todos viriam em sua direção, consternados e agradecidos. Mas quando os animais racionais viram a Verdade diante deles, correram todos para suas casas. A Verdade estranhou, mas pensou:- Oras! Eles não acreditavam que eu pudesse vir, devem ter corrido para suas casas, para preparar uma recepção de acordo para mim.
Ela aguardou algum tempo, e vendo que ninguém se manifestava, resolveu bater de porta em porta, mas para seu espanto, ninguém abriu nenhuma porta, ninguém nem sequer respondeu.
Todos os animais racionais ficaram apavorados com a presença da Verdade, pensando no horror que seria, caso ela entrasse.
Não foi preciso muito tempo para que a Verdade entendesse; que não era não é, e nem será bem vinda. E assim do mesmo jeito que ela veio ela partiu.

Moral da estória: Todos clamam pela Verdade! Mas se ela vier! Quem vai querer ouvi-la? Quem de fato não esconde nada?

Marise Lima Muniz

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Mentira ou Verdade

Sou uma mentira
Sou uma verdade
Ilusão ou realidade
Se sou mentira
Terei humildade para aceitar
E se sou verdade!
Terei capacidade para conduzi-la
Até que ponto a mentira
É verdade?
E quantas verdades viraram
Mentiras?
E eu que sempre acreditei
Na verdade!
E se a verdade mentiu para mim?
E se a mentira era verdade
       Ilusão ou realidade
       Realidade ou ilusão
E se os sonhos forem verdades?
Que verdade haverá na realidade?
E se acordada crio tantas
Ilusões
Quem sabe sonhando
Contemplarei a pura realidade
Quem sabe o silêncio
Seja a maior palavra
Quem sabe! Quem saberá?
Me calo
Talvez seja ilusão
Mas também
Pode ser
A mais concreta realidade.
(13/07/1992)

Marise Lima Muniz

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Desastrada

Permaneço no ar
Não me canso de voar
Bato asas coloridas
De borboleta que sou...
Mas... vôo ao redor da luz
Dos seus olhos
Como as mariposas
Na noite escura

Não sou mais uma borboleta!
Sou sim, um coelho assustado
E de olhos esbugalhados de pavor.
Também sei, ser sabonete
Posso sair correndo...
Dando saltos, assustado
... ... ... ... ... ... me esconder!

Posso de medo de derreter
Escorregar das suas mãos...
E no desespero da fuga
Escorrer pelo ralo...
Desastrosamente...
Sumir... (04/07/1992)

Marise Lima Muniz

domingo, 31 de julho de 2011

O Amor do Cavalo Selvagem*

Você tem uma bela fazenda, e de repente um cavalo selvagem salta e entra nas suas terras, ele é tão fascinante, que você fica fantasiando com a possibilidade do cavalo deixar você se aproximar, tocar e quem sabe até mesmo poder cavalgá-lo. Para seu espanto o cavalo volta todos os dias, e pouco a pouco seus desejos se realizam, o cavalo deixa que se aproxime, deixa que o toque e num belo dia você mal acredita, pois o cavalo permitiu que cavalgasse nele.
Você começa a perceber que o cavalo voltará todos os dias, fica contando os segundos, os minutos e as horas que faltam para ele voltar, nem sequer acredita que algo tão incrível esteja acontecendo.
Mas você começa a se sentir inseguro, tem medo que ele não volte, e constrói um estábulo para prendê-lo, depois de um tempo que o cavalo esta preso, lentamente ele vai perdendo o tônus muscular, perdendo o garbo e ficando sem o glamour que o atraiu, você já não o visita com a mesma frequência, e já não se interessa por ele como se interessava antes. Ele está lá preso, e a mercê de seus humores e caprichos, mas você, já não senti o mesmo por ele, e mesmo assim não o solta, deixa lá, preso e esquecido. E sabe o porquê? Porque você não sabe mais, se o cavalo esta lá porque quer ou porque você o prendeu!
Já reparou que a maioria ama assim, primeiro se encanta, depois fantasia e deseja, e quando suas fantasias e desejos se realizam, elas simplesmente prendem, até esquecer quem está lá, até perder o interesse,  e mesmo assim quando não se interessar mais, vai continuar a prender, por simples insegurança e capricho.
Acontece que este tipo de amor não me interessa. Não me interessa que me prendam, e eu não tenho interesse nenhum em prender, o meu maior prazer será encontrar um amor e deixá-lo livre, e mesmo ele sendo livre, ele escolher estar comigo, e eu sei que ele esta ali porque quer e não porque eu o prendi, e ele sabe que eu estou ao lado dele, porque eu quero e não porque estou presa, só assim, somente deste modo será amor para mim.

Marise Lima Muniz

Nota do autor* Eu sempre contei esta estória para os meus amigos, eu a criei para ilustrar o único tipo de amor que posso oferecer e posso aceitar, e muitos pediram para que eu escrevesse, pois queriam mostrar para esta ou aquela pessoa. Caros amigos, aqui está, usem e abusem desta estória.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Horas sem Poemas

Um poema por dia
Um poema a cada hora
Poema... Horas... Ora um poema!
Anos sem poemas
Quantas poesias assassinadas
Quantos suspiros sem palavras
Quanto silêncio ocupando
Tanto espaço
Dez anos sem poemas...
Na rotina não tem poesia
Um poema a cada hora
Tentando compensar
Tanto espaço vazio
Espaço vazio... das horas...
Sem poemas...
(06/07/1992)

Marise Lima Muniz

terça-feira, 26 de julho de 2011

Buraco Negro


Já me senti triste, tantas vezes, incontáveis vezes em minha vida, mas não como hoje, não como esta tristeza que sinto agora, ela é silenciosa, não quer reclamar, nem comentar sobre o porquê. Ela é como um turbilhão de infinitas sensações e pesares, ela parece estar no fundo do meu ser, em um lugar que nem eu mesmo conheço, inacessível, irascível, no entanto marcante e tão profunda, que tenho a sensação de afundar dentro de um lugar, dentro de mim mesma. Sinto sono, durmo e não descanso, sinto cansaço, um cansaço sem justificativa, o repouso não soluciona, a meditação se desvanece, a calma evapora, aguardo silenciosa, silêncio este de uma morbidez sinistra, uma calma evaporada refletida no meu semblante, uma agonia contida sem forças para se expressar.
Memórias, perguntas, lágrimas e de novo o cansaço; um cansaço grotesco, descomensurado. Não quero chorar, estou cansada demais para lastimar, contemplativa sem forças e sem vontade de reagir ou compreender.
Já procurei respostas, justificativas; já dissequei minha alma, minha vida.
Já passei noites e dias, meses e anos tentando compreender, buscando respostas, fazendo perguntas, decifrando enigmas.
Acho que dei a resposta errada para a esfinge, e agora, e há muito tempo, e de dentro para fora, aos poucos, bem devagar ela me devora. Quem sabe neste momento minhas emoções misteriosas e insondáveis começam a implodir. Quem sabe como estrela atrevida brilhei demais, queimei demais, me consumi numa implosão de luzes e cores e não consigo suportar o indecifrável buraco negro que me tornei. (04/12/2002)

Marise Lima Muniz

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Ausência

Caí do seu colo
Uma ausência me invadiu
Fiquei muda, me tornei distante
Distante das palavras
Próxima demais do silêncio
Não gosto do silêncio
Ele faz muito barulho
No silêncio o vento grita
A respiração sufoca
O ar acaba
Mas não é a morte
Apenas desmaiei
Desmaiei na sua ausência
Por favor, me apanhe
Me apare com suas mãos
Não me deixe cair no chão...
Bonecas* quebradas...
Brinquedos jogados...
Insetos a espreita...
E um piso frio demais...
                          
Bonecas* mortas, envenenadas com “formicida”.(05/07/1992)
                                           
Marise Lima Muniz

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Elaihan, a Alma de Deus

Era uma vez uma alma... Sim! É isto mesmo “uma alma”, é sobre isto que vamos divagar, mas não vale citações ou verbetes de grandes autores, que já escreveram sobre o tema, já reparou que para seguir as metodologias estabelecidas, a maioria acabou se transformando em meros copistas.
É bom refletir sobre isto, pois pouco a pouco, muitos ficaram com medo de pensar por si mesmos, e para sentirem-se melhor, citam autores renomados, e transformam suas teses em releitura da idéia dos outros, é claro também, que há grupos que defendem metodologias não convencionais, para nossa sorte e alivio.
Mas o que vou escrever não é uma tese, longe disto, só achei que seria bom libertar o leitor da tirania dos caminhos pré-estabelecidos, para que possa seguir comigo de um modo leve e descompromissado.
A alma desta história é a minha própria alma, mas saber que a sua alma me acompanhará agrada-me e muito, e permite que eu acredite que juntos podemos ir mais longe que o normal.
Então podemos prosseguir com o nosso clássico e velho conhecido:
- Era uma vez... Elaihan, a alma de Deus, não me perguntem o que o nome significa, pois não tenho a mínima idéia, só sei que soa como um nome divino e isto é muito inspirador.
Os que conheciam o corpo de Elaihan alegavam que ela sempre fora mais espírito do que matéria, mas isto era justificável por uma condição inata, ela sempre encontrou o que buscava no espírito e começou a meditar ainda muito nova, desenvolveu grande disciplina espiritual, que estabelecia uma linha direta com seu lado material, e por conseqüência sua disciplina material era igual a sua disciplina espiritual, isto também é muito inspirador! Uma vez que disciplina significa senhor de si mesmo.
O corpo de Elaihan se esmerou em estabelecer comunhões interiores, ele uniu em si mesmo valores que a priori são considerados antagônicos, ele transformou estes valores em amantes, uniu luz e sombra, uniu feminino e masculino, uniu seus anjos e seus demônios e seu Eu material com seu Eu espiritual, todos com um exemplar equilíbrio na mais perfeita harmonia.
Com tal postura ela quis entender o bem e o mal, e lhes asseguro que conseguiu, ela sabia que os dois eram ilusões, mas não era uma ilusão comum, uma vez que seis bilhões de pessoas acreditavam nestes valores duais, e nestes combates milenares entre forças antagônicas e ancestrais. Descobriu por si mesma, pois era mania dela ser assim, ela adorava pensar por conta própria (para aqueles que discordam de sua dedução, não se preocupem, afinal este é o conto de fadas de Elaihan, a alma de Deus e não precisa ser levado tão a serio assim). Imagino que esteja curioso para saber qual foi à resposta que ela encontrou em dilema tão antigo, vou lhes contar:
- Ela descobriu que o mal era a “Ausência de amor” e o bem era a “Ausência da verdade”, pois se o bem conhecesse a verdade, não deixaria faltar amor para o mal, e se o mal recebesse o amor que lhe falta, poderia então conhecer a verdade, assim o bem perceberia seu engano e resgataria a verdade perdida, e estas forças que duelam desde tempos ancestrais, se uniriam e se compreenderiam mutuamente, era isto que ela achava, e era isto que ela acreditava.
Imagino que esteja pensando, o que aconteceu com o personagem principal desta história, calma, não se apresse, eu já chego lá.
Neste ponto depois de tantas comunhões, tanta harmonia e tanto entendimento, o Eu do espírito e o Eu da matéria resolveram fazer um acordo, e trocar de lugar, já que a comunicação dos dois era tão boa, e assim foi feito, o espírito veio para o mundo da matéria e a matéria foi para o mundo do espírito que ele considerava ser o mundo das energias, o propósito desta troca era que; o espírito traria para a matéria a consciência de tudo aquilo que ele representava, e a matéria sabendo das necessidades do corpo, poderia ajudar melhor, vivenciando mais profundamente o mundo da energia e dando um suporte maior para o espírito em relação às necessidades do corpo.
É justamente neste momento que Elaihan vai entrar nesta história, de repente a consciência do corpo não era mais a mesma, e o corpo observou que havia alguém por trás de todas aquelas percepções, e começou a esmiuçar para saber quem era aquele, que facilitou tanto, este encontro e comunhão perfeita da matéria com o espírito. Neste momento com estas forças unidas, o corpo medita e descobre que o responsável pela aquela conquista inusitada era na verdade a alma.
Nesta etapa preciso começar um parágrafo novo, você vai entender o por quê?
- O corpo reparou que praticamente todas as suas escolhas eram feitas a partir da alma, amigos eram reconhecidos pela alma, seus estudos pesavam isto em primeiro lugar, o que a alma reconhecia era pego, o resto deixado para lá, e assim foi, mas havia algo estranho, se perguntassem ao corpo: - O que era o espírito? Ele desandaria a explicar sem a menor dificuldade, mas se a pergunta fosse: - O que é a alma? O Silêncio era sepulcral, nem um só pensamento lhe vinha na alma, reparou esta estranheza, o corpo sempre citava a alma em minúcias no seu dia a dia, a alma gosta, a alma não gosta etc. e tal, era sempre assim, mesmo sem saber quem ela era.
A primeira coisa a ser feita era mergulhar dentro de si, em busca da própria alma, descobrir quem ela era, mas antes de mergulhar o corpo resolveu dar uma espiada no que estavam dizendo por ai a respeito da alma.
Ah! O corpo também gostava de pesquisar, e fez isto, para saber o que era a alma, mas não achava nada que o convencesse, a verdade era que o único modo de saber quem era a alma, seria indo atrás dela e a conhecendo, já que ela se manifestava em todas as suas escolhas, e assim foi feito.
O corpo descobriu que a alma tinha um nome, ela se chamava Elaihan e dizia ser a alma de Deus, Elaihan explicou para o corpo que Deus não era propriamente um ser, Deus era na verdade ser, Elaihan explicou também, que o sentido de Deus era o sentido da unidade, de saber que você estava em tudo e tudo estava em você, que se levássemos este sentido a sério, não deixaríamos ninguém sentir fome, pois nos veríamos naquele faminto, não deixaríamos existir a pobreza, indiferença ou coisas assim, porque estaríamos naquele ser, você estaria em cada coisa a sua volta, e cada coisa estaria em você.
Elaihan começou a explicar coisa por coisa, disse que literalmente a única possibilidade de conhecer Deus era conhecer-se, que o ser humano buscava tudo fora, e por isso nunca achava nada, e também nunca assumia a responsabilidade de seus atos, se recebia o bem, era de uma força superior, se recebia o mal, era de uma força inferior, e assim continuava a dividir tudo, sem nunca parar de fazê-lo.
Elaihan me pediu para imaginar, disse assim:
- Imagine um lugar que sempre existiu, sempre existe e sempre existira, um lugar que não tem começo, nem meio, nem fim, mas este lugar não esta fora de você, não é uma coisa que num dado momento foi criada, mas sim coisas que sempre existiram, e aos poucos foram se adaptando e se aprimorando, imagine que neste lugar não existe hierarquia e sim sinergia, mais que isto, existe um  sentido de unidade e amizade transcendente, pense no seu corpo e perceba que a sua saúde depende da união e harmonia, não há nada nele que seja desprezível ou descartável, imagine que cada órgão do seu corpo represente um atributo de poder, mas ninguém pode ter domínio sobre ninguém, quando isto acontece você fica doente, quando um órgão resolve comandar o outro, seu corpo adoece. Pense também no sentido físico da energia, as fronteiras entre uma coisa e outra é pura ilusão, se perceber que faz parte de tudo, verá que nunca esta só, que o poder de tudo esta em você, mas ele só pode se expressar se acreditar em si mesmo de um modo que nunca foi capaz antes, e isto significa se aceitar e ter respeito próprio. Perceba de uma vez por todas que o mal não existe de fato, o que existe e criou tantas tragédias, foi o medo, mas não o medo racional, daquilo que podemos ver, e que de fato temos que nos proteger, e sim o medo sem sentido, e os filhos do medo que são o preconceito, a inveja, a raiva, o ódio, a indiferença, a crueldade etc., são muitos os filhos do medo, difícil até de nomear, é como se este tipo de medo estivesse acoplado nas minhas costas disse Elaihan, e é ele que cega a humanidade e não permiti que ela evolua na alma, da mesma forma que evolui na tecnologia. Agora pense em você, e saiba que seu corpo tem a memória de tudo o que o antecede, ele não é a minha prisão, ele não é descartável ou coisa suja e mundana, pois tudo a sua volta desde tempos imemoriais foi construído pelo seu corpo, e perceba que ele carrega a paz de saber que é eterno, ao contrário do que se diz ou se imagina, pois apesar do corpo um dia morrer, ele continuara a fazer parte de tudo, será alimento de tudo que o alimentou, será adubo de todas as plantas que o serviram, então na renovação de tudo ele retorna, em cada coisa viva que se renova incessantemente.  
É importante que entenda este conceito da forma mais profunda que for capaz, e entendendo isto verá que se sou Elaihan, a alma de Deus, você sendo meu corpo é na verdade o corpo de Deus, e seu espírito é na verdade o espírito de Deus, e poderá concluir que você é uma centelha divina, e como se fosse a gota de um oceano, você é a gota, mas também é o oceano, o oceano que a alma representa, porque é a alma de tudo e de todos, mas é a sua alma também, e se libertará da ilusão de estar fora das coisas, e perceberá que seu universo interior não difere em nada dos universos a sua volta.
E foi com esta última observação que o corpo entendeu o que era a alma, a sua, a minha e a de todos nós, descobrindo então o que ela era, o corpo realizou a comunhão final com a alma e com todo o sentido da vida e sentiu-se completo e feliz, sentiu-se digno e realizado, satisfeito com o resultado de sua busca, mas no outro dia ele pensou:- O que será que é o inconsciente? Porque não temos consciência dele? Acho melhor ir atrás investigar!
Mas isto é uma outra história...
 Marise Muniz